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Sonoridades: veja o que rolou no papo com Rafael Pensado, brasileiro na equipe do Megadeth

Por Vagner Mastropaulo | Em 08/10/2021 - 00:22

Fonte: Sonoridades


 

 

Retornando após um tempinho sem repercutirmos episódios do Sonoridades, o 84º programa trouxe Rafael Pensado, do Mindflow, o “Dream Theater brasileiro”, está lembrado? Além da discografia de respeito, o quarteto teve grande visibilidade ao ser incluído no line-up da segunda edição do Live ‘N’ Louder, na Arena do Anhembi em 14/10/06, junto a Massacration, Gotthard, After Forever, Primal Fear, Nevermore, Sepultura, Doro, André Matos, Stratovarius e David Lee Roth.

 

Atualmente o baterista é membro da crew do Megadeth e a conversa de quase setenta e cinco minutos (descontado o tempo em apresentações, despedidas e problemas de conexão) com Isabele Miranda foi disponibilizada no canal do YouTube em 04/09. Você pode conferi-la na íntegra clicando aqui, mas faremos um resumo a seguir e, apenas contextualizando, Rafael falava diretamente de Las Vegas em 30/08, entre shows de Dave Mustaine, Kiko Loureiro, James LoMenzo e Dirk Verbeuren em Phoenix (Arizona) e Reno (Nevada), dias 29 e 31.

 

- a descoberta do metal:

“Para mim, começou tudo de pequeno. Eu morava em São Paulo, num bairro que se chama Planalto Paulista, perto da Praça da Árvore, e tinha um vizinho que se mudou para a casa ao lado. Eu andava de bicicleta na rua com uns cinco, seis anos e o via sentado na calçada com walkman, jaqueta de couro, cara de mau. Ele devia ter uns quinze anos à época e, um dia, parei com a bicicleta na frente dele e falei: ‘O que você está ouvindo?’. E ele: ‘Heavy metal! Judas Priest!’”.

 

- o surgimento do Mindflow:

“Em 1999, tive oportunidade de morar na Austrália e o Rodrigo Hidalgo, um dos meus maiores amigos, foi me visitar no meio do ano e tivemos a idéia de montar o Mindflow, de ter uma banda e que a gente fizesse as nossas músicas, não só tocar cover de outros artistas, mas fazer o nosso caminho, conquistar os nossos fãs. Em 2000, voltei ao Brasil, começamos o que seria o Mindflow e ficamos por treze anos ininterruptos, de 2000 a 2013: foram cinco discos, fizemos turnês pelo mundo inteiro – ou seja, aquele sonho de criança, a gente fez acontecer”.

 

- o começo de uma visão mercadológica:

“O mais importante foi que aprendemos com nossos erros. Quando a gente tomou cambau de gravadora, aprendemos que, para o próximo disco, não seria uma gravadora, e sim montar a nossa distribuidora. Aí começou a surgir a necessidade de profissionalizar o produto banda. Estou falando de pré-YouTube, pré-Facebook, então começamos a ir atrás de promotores [de shows] em cidades”.

 

- o status atual do Mindflow:

“Tem muita gente que pergunta: ‘O Mindflow acabou ou não?’. E a gente nunca oficializou isso porque, para a gente, não faz sentido acabar. Não sei se vamos voltar a fazer um disco de novo. A gente se fala com freqüência, coisas da vida. Antes da banda, somos super amigos e um comemora a vitória do outro. Então não tem sentido nenhum em acabar com um negócio que ninguém está a fim de acabar. Vai acabar quando a gente quiser que acabe. Se a gente quiser, daqui a cinco anos, lançar um disco, a gente lança”.

 

- como ele foi parar no “Time Megadeth”:

“Recebi uma mensagem do Kiko Loureiro! Ele estava na segunda turnê do Megadeth, tinha acabado de entrar na banda e falou: ‘Sei que você está na estrada, mas me fala seu peso e altura’. Falei: ‘Meu peso e altura? Ou você está mandando alguém vir me pegar na porrada aqui ou você precisa de um novo Vic aí’. E aí ele: ‘Putz, precisamos de um Vic para amanhã em San Bernardino, na Califórnia’, doze horas de onde eu estava. Ele falou: ‘O show é com o Black Sabbath às seis da tarde e é o seguinte: terminou o show, você sobe no busão, três semanas e meia conosco e vamos nessa’. (...) Ali foi onde começou para mim no Megadeth, foi fazendo Vic Rattlehead em setembro de 2016”.

 

- como ele fez para permanecer, ao menos temporariamente:

“Por alguma razão o Dave [Mustaine] foi com a minha cara, não sei por que (...). No quarto, quinto show, ele começou já a falar um pouco mais comigo e acho que ele vai sondando a equipe também, para a galera sentir: ‘O que vocês acham desse cara aí? Como ele é?’. E essa é uma parte super importante: não adianta você falar dez idiomas, ter todos os títulos que você imaginar. Se você não tem a habilidade de lidar com outras pessoas em convívio social, já era. Você não vai pegar [o emprego] e, se pegar, você não vai durar muito”.

 

- a solução encontrada para tentar convencer Mustaine a mantê-lo:

“Em janeiro [de 2017], teve a NAMM, a feira dos novos produtos, instrumentos e marcas e todos os artistas do planeta vão para lá. Como se fosse a Expomusic no Brasil, é a NAMM, em Anaheim, na Califórnia, perto de Los Angeles. Eu me lembro que a única chance que eu tinha de falar com o Dave era se eu fosse lá, pegasse uma fila de autógrafos e, na hora que chegasse minha vez, eu tinha dez segundos para fazer ele concordar com alguma coisa. (...) Fui lá, peguei uma fila de duas horas de uma marca de encordoamento de guitarra e, na hora que parei na frente dele, falei: ‘Dave, lembra de mim?’. E ele: ‘O que você tá fazendo aqui, cara?’. Falei: ‘Quero conversar com você, a turnê foi animal, queria mais uma chance’. E ele: ‘Fala com meu assistente de empresariamento, tem uma vaga, o empresário do dia-a-dia’, que eles chamam de day-to-day guy”.

 

- deu certo?

“Uma amiga minha do Cazaquistão estava comigo lá [na NAMM] e viu o Dave: ‘Ele está entrando num elevador, vai lá com ele, se joga lá’. Fui, o segurança me barrou e o Dave disse: ‘Pode vir, traz sua amiga também’. Fomos para uma salinha de recepção de uma das marcas que o patrocinavam, fiquei no canto. Ele tinha um monte de gente para cumprimentar, eu suando, nervoso pra cacete, não podia estragar essa chance, tinha que fazer rolar de algum jeito. Ele chegou para mim, depois de uns quinze minutos, e falou: ‘O que você está fazendo aqui, cara?’. Falei: ‘Putz, Dave, queria falar com você porque foi legal pra caramba a turnê, acho que posso ajudar muito, queria uma chance’. Ele botou a mão no meu ombro e falou: ‘Calma. Me dá um abraço’, acalmando uma criança desesperada. Aí ele falou: ‘É o seguinte: eu não contrato ninguém, quem contrata é o empresariamento, mas, se alguma hora chegar numa votação, você tem o meu voto’”.

 

- será que agora vai?

“Vi num site que ia ter um acampamento na casa do Dave, um bootcamp em Fallbrook, uma região de San Diego. Ele tinha uma casa lá e iam fazer um acampamento para sessenta fãs, em vários níveis de categoria: o fã que fica no hotel, o que acampa na casa dele, vários níveis de pacote que você pode comprar e ter a experiência de ficar sexta, sábado e domingo na casa do Dave Mustaine, com o Megadeth e um monte de atividades agendadas. (...) Quando vi aquilo, falei: ‘Tá aqui a minha oportunidade’”.

 

- e funcionou?

“Falei com o empresariamento de novo: ‘Cara, tem uma oportunidade aí para mim?’. Ele falou: ‘Você sabe afinar violão? Vou te pagar umas ‘duas migalhas de pão’, você dirige até San Diego todo dia, volta pra Los Angeles, você vai afinar uns violões lá e acho que pode ser legal’. Falei: ‘Não, peraí... vocês pegaram um hotel inteiro, triplica meu salário para esse fim de semana, me bota num quarto de hotel, vou com meu carro e te prometo que vou ser o primeiro a chegar e o último a ir embora’. (...) Comecei a ficar mais próximo do Dave, antecipar as necessidades da banda, cuidar do estúdio. Se via uma geladeira sem garrafa d’água, eu já pegava água e repunha na geladeira. Se via um cinzeiro cheio, eu esvaziava. Não era meu trabalho, mas eu estava ali e tinha que me fazer útil”.

 

- finalmente, a chance:

“Passaram-se uns dois meses e recebi o convite para ser assistente de produção, um trabalho desgraçado e maldito que ainda faço [risos], e eu continuaria sendo o Vic. Na hora, eu não queria porque na turnê anterior eu tinha visto o quanto o cara se ferra para fazer esse trabalho, mas era minha porta de entrada. Então falei: ‘É lógico que vou fazer e vou ser o melhor que vocês já viram’. Foi assim que comecei e, aos poucos, fui me envolvendo mais pessoalmente com a banda, mais diretamente com o Dave. Tinha algumas coisas que ele pedia diretamente para mim e nem ia para o tour manager”.

 

- a relação com o “chefe”:

“Quando estamos em turnê, ‘DM’ não é de ‘Dave Mustaine’, é de ‘Decision Maker’, é quem toma as decisões. Sempre jogamos aberto, já falei para ele diversas vezes, desde a primeira: ‘Cara, eu nunca vou mentir para você. Eu te dou a verdade zoada, se não souber alguma coisa, vou averiguar, volto, te falo, mas não vou mentir por qualquer coisa. Só vou te contar a verdade’”.

 

- e, na prática, como é trabalhar com Dave Mustaine?

“Em 13/09, ele vai fazer sessenta anos e, se Deus quiser, vou estar aqui para comemorar essa etapa gigantesca com ele. Ele é super resiliente, é um cara que sabe o que quer. A parte criativa do Megadeth é 150% ele. Quando fazem as reuniões de brainstorming junto com o empresariamento, banda e equipe, é ele que direciona o barco. E ele sempre abre para todo mundo opinar”.

 

- a função de Rafael hoje:

“Comecei como Vic, depois fui assistente de produção, hoje ficou uma coisa tão aglutinada que faço meio que um elo entre equipe, banda e empresariamento. Então, quando a banda não está no prédio, faço a coordenação de produção de backstage. Quando a banda chega, fico praticamente com o Dave o tempo todo porque meu trabalho tinha sido feito já. E aí, quando começa o show, entro no ‘Universo do Vic’. E quando termina o show, faço finalização da produção: é acertar contas com os assistentes locais, me certificar que está tudo certo e viajar para a próxima cidade”.

 

- spoilers sobre “The Sick, The Dying... And The Dead!”, previsto para sair ainda este ano:

“Há elementos nesse disco que não tem em nenhum outro disco do Megadeth, principalmente do ponto de vista da bateria. O Dirk é um batera incrível, de metal extremo, e é muito legal escutar o disco e ver que é ele tocando. Isso somou muito”. [nota: trata-se da estréia do belga em estúdio com o Megadeth, pois Dystopia (16) foi gravado por Chris Adler, ex-Lamb Of God]

 

- e o Kiko?

“É gigantesca a contribuição do Kiko para o disco. Quem escutar o disco, na hora que escutar, vai enxergar muita coisa com a qual o Kiko colaborou”.

 

- e o que mais?

“Senti que eles passaram por todas as épocas, até porque, nos últimos dois, três anos, o Dave tem resgatado muita música antiga: ‘The Conjuring’, ‘My Last Words’, ‘Rattlehead’, ‘Mechanix’ [nota: as duas primeiras de Peace Sells... But Who’s Buying? (86) e as outras do début Killing Is My Business... And Business Is Good! (85)]. Essas músicas são clássicos do thrash metal, do começo, meio dos anos oitenta, e fazia muito tempo que ele não as tocava. Isso começou a voltar e então naturalmente essa fase também influenciou as novas composições. Então, ao meu ver, é um disco mais forte do que o Dystopia”.

 

- a conturbada saída de David Ellefson:

“Foi um choque para todo mundo, né? Ninguém esperava nada disso. Porque as partes do baixo já estavam gravadas, depois regravaram com outro baixista e o James [LoMenzo] veio para entrar na banda [nota: um mistério... Ninguém revela quem fez a gravação, se foi o próprio LoMenzo ou até Steve Di Giorgio, segundo rumores de internet]. Ele é um cara que soma muito, já conhece a casa, já esteve no Megadeth, gravou o Endgame e, se não me engano, acho que gravou o Super Collider [nota: na verdade, Ellefson fez o play de 2013 e Thirteen (11), entre os citados; além do citado full length de 2009, LoMenzo esteve em United Abominations (07)]. É um cara sensacional de se estar perto, super inteligente, bom de papo, entende a dinâmica do Dave muito bem. Mas, com relação ao que aconteceu, foi triste, inesperado. Ninguém torcia para isso acontecer, não tem muito... Acho que é mais o lance pessoal e familiar que lamento mais, mas não tem muito mais o que falar. Em relação à posição da banda, naqueles posts é o Dave falando. Você vê claramente que ele escolheu aquelas palavras e, para ele, foi tão decepcionante quanto para os fãs”.

 

- o ocorrido afetou a dinâmica entre Rafael e o ex-Megadeth?

“Tenho um relacionamento ótimo com o baixista que saiu, sou amigo pessoal do cara, ele me ajudou muito e nunca vou me esquecer disso. Torço pelo melhor para ele, que ele encontre a luz, siga o caminho dele. Não vejo nada do que ele fez, do ponto de vista criminal, não entendo dessa maneira, mas acho que foi um vacilo. Não falo pelo Megadeth, essa é só minha opinião”.

 

Normalmente fazemos a transcrição parcial do conteúdo, porém, em meio a tantos assuntos interessantes, desta vez assumidamente nos empolgamos. Obviamente teve mais e vale a pena prestigiar o Sonoridades para descobrir o que Rafael Pensado revelou e não coube nesta matéria...

 

Veja o 84º episódio do Sonoridades com Rafael Pensado: https://www.youtube.com/watch?v=lbmnj2J_PZY

  

 

 

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Um dos episódios seguintes foi com Bruno Gouveia, vocalista do Biquini Cavadão: https://www.youtube.com/watch?v=QE8J3ZJ8NQI

 

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Vagner Mastropaulo

Bacharel em inglês/português formado pela USP em 2003; pós-graduado em Jornalismo pela Cásper Líbero em 2013; professor de inglês desde 1997; eventualmente atua como tradutor, embora não seja seu forte. Fã de música desde 1989 e contando... começou a colaborar com o site comoas melhores coisas que acontecem na vida: sem planejamento algum! :)




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