Sangue de Bode: "O Funeral de Tudo" e a arte de transformar dor em música
Por André BG | Em 24/08/2026 - 02:10
Fonte: Alquimia Rock Club
Foto: Gabriel Sinuê/Divulgação
Sangue de Bode, banda carioca que lançou recentemente "O Funeral de Tudo", seu quarto álbum de estúdio, é um dos grandes nomes da música extrema contemporânea no Brasil.
Com o novo disco embaixo do braço, o grupo tem colocado o pé na estrada desde o começo de 2026 e, somente no primeiro semestre, percorreu boa parte do Brasil com shows que levaram sua música extrema, visceral e sem rótulos a diferentes regiões do país. 'Máxima Miséria' foi o single de apresentação do trabalho com clipe inteiramente realizado pela banda e disponível no YouTube via Scena Lab.
O som praticado pelo Sangue de Bode pode muitas vezes ser inominável ainda que transite com naturalidade entre influências de black/death, thrash, hardcore e groove. O resultado é uma obra coesa e impactante, que transforma a dor em linguagem e fala o idioma de quem sofre.
Nesta conversa entre Alquimia Rock Club e o vocalista e guitarrista João Verme, ele fala sobre o processo de criação do álbum "O Funeral de Tudo", as dores e inquietações que atravessam as letras da banda, a evolução da sonoridade e os próximos passos da Funeral Tour que até o final do ano continua visitando cidades do Brasil, algumas pela primeira vez, como Campo Grande, Mato Grosso, em novembro.
A agenda completa do Sangue de Bode pode ser conferida no Instagram @sanguedebode.
Alquimia Rock Club: "O Funeral de Tudo" parte de uma ideia quase paradoxal: encontrar conforto no colapso absoluto. Em que momento vocês perceberam que o fim — pessoal, social ou existencial — poderia soar mais como alívio do que como tragédia?
João Verme: O momento de percepção ou sensação que justifique o tema disco veio para cada integrante de formas diferentes e em tempos diferentes, mas com a mesma conclusão amarga. É nítido que em todas as esferas existenciais a vida tem falhado, e a experiência humana segue a passos largos pro buraco. Não somente o trabalho mais recente, mas toda a discografia da banda nasce de um lugar introspectivo e melancólico, porém é impossível ignorar a decadência da dinâmica social destrutiva que transforma o mundo em um grande caixão azul. A forma como a sociedade tem se organizado, visa acima de tudo a produção, o resultado e a falsa preocupação com a vida humana. Essa vida só tem valor se for um produto vendável nas redes, ou uma força de trabalho quase escrava, isso adoeceu as pessoas, as pessoas adoeceram o mundo, e a perspectiva de melhora é cada vez mais distante e utópica.
O resultado disso tudo é a maioria esmagadora dos seres humanos vivendo uma experiência ansiogênica e tóxica, enquanto os grandes chefões ditam regras e padrões através de ambientes sociais que eles mesmos controlam. A falsa sensação de controle é um fator perigoso no estilo de vida atual, ou até mesmo nos choques de realidade que tivemos nos últimos anos com mortes próximas e com a fragilidade da existência, mas "O Funeral de Tudo" é um conceito que torna impossível não pensar além das próprias tristezas.
Alquimia Rock Club: O disco nasceu em meio a perdas pessoais significativas e transforma experiências traumáticas em uma obra extremamente densa. Como foi equilibrar vulnerabilidade real e brutalidade estética sem romantizar a dor?
João Verme:Acredito que esse suposto equilíbrio vem justamente do descompromisso em buscar equilibrar qualquer coisa dentro do processo, e da naturalidade como as nossas ideias acontecem, lírica ou sonoramente. A essência da banda desde os primórdios, infelizmente tem sua base em um lugar melancólico, fúnebre e extremamente introspectivo, sendo o resultado de anos de doenças e perdas impactantes pelo caminho, o que não foi diferente no trabalho mais recente. Além da bagagem emocional negativa que os temas das músicas já carregam naturalmente ao longo dos últimos anos, em "O Funeral de Tudo" mais um pesadelo se somou nessa trajetória, com a fatalidade da perda de um amigo íntimo e um tio num intervalo de 30 dias, durante a gravação. No fim das contas, acho que nos resta homenageá-los de alguma forma com nossa expressão, que certamente eles aguardavam para ver o resultado. Tudo mudou com isso, então qualquer sensação estranha ou significado ruim que possa ser analisado no trabalho, soa equilibrado ou sincero justamente por mais uma vez ser real, e ser muito triste.
Alquimia Rock Club: Musicalmente, o álbum expande texturas com duas guitarras e reforça essa sensação de sufocamento e caos. O que mudou no processo criativo do Sangue de Bode para chegar nesse que parece ser o trabalho mais maduro e extremo da banda?
João Verme: O Sangue de Bode sempre teve duas guitarras desde o início da banda. Na primeira formação a banda era um duo formado por Sinuê, na bateria, e Verme no vocal e guitarra. Após a entrada de Nekrose, Verme assumiu o baixo até a entrada de Zé. Apesar da escolha estética e performática da formação de palco com os vocais separados e apenas uma guitarra, o processo de composição e gravação da banda sempre teve duas guitarras e contribuição de dois integrantes nesse quesito. Sobre a maturidade do novo álbum, acho que ela vem em algum nível pela adição de texturas ou elementos específicos, mas principalmente por ser um disco gravado e pensado após anos ininterruptos de estrada e química de palco em turnês extensas pelo país, isso certamente amadureceu todos nós individualmente e enquanto grupo, como músicos, como amigos e como pessoas.
Quanto à sensação extrema do álbum, todos carregaram isso como um resultado de algo ruim, nesse disco a fatalidade surgiu durante o processo, Simultaneamente, e isso impactou o processo de uma forma diferente das anteriores certamente.
Alquimia Rock Club: A sonoridade de vocês atravessa black/death, thrash, hardcore e groove sem se prender a rótulos. Essa identidade "inominável" foi uma busca consciente desde o início ou surgiu naturalmente da soma das vivências e referências da banda?
João Verme: A sonoridade da banda surgiu sempre de forma natural. Obviamente nós temos algumas referências mais fortes em comum, e a maioria se pauta no Black e no Death Metal, além do Grindcore.
Me lembro nos primórdios da banda, que eu (Verme) e o Sinuê começamos a ensaiar e criar com um objetivo de fazer algo que misturasse o Mayhem com o Nasum (falando muito superficialmente acho que essa é uma base que faz sentido) e a partir dali fomos nos encontrando. O Slipknot também foi inevitável na diversidade das nossas influências. Partindo desse rótulo bem básico e rudimentar, "moldamos" um som de forma muito natural e seguimos sempre experimentando cada vez mais nossas inspirações em busca de resultados que nos animem e que não se prendam a rótulos ou regras.
Esse é um dos principais motivos de sempre termos nos considerado uma banda de "Metal Extremo", pois justamente por admiramos e respeitarmos todas as vertentes da música extrema, escolher restrições de apenas uma ou duas não cabe no nosso processo criativo.
Alquimia Rock Club: A Funeral Tour leva esse universo para o palco num momento em que muita gente vive seus próprios colapsos internos. Que tipo de experiência vocês querem provocar ao vivo: confronto, catarse, desconforto... ou um senso coletivo de sobrevivência?
João Verme: O Sangue de Bode segue construindo um universo próprio onde, apesar de inevitavelmente transitar em terrenos e revoltas no âmbito social e político enquanto uma banda de terceiro mundo, ainda tem como a base mais forte a reflexão extremamente introspectiva sobre a própria existência e sobre as marcas que cada indivíduo carrega na sua própria experiência.
Abordando temas delicados e cada vez mais comuns nos dias de hoje como depressão, ansiedade, e total desamparo social, a banda não mede palavras e nem esforços em traduzir esses sentimentos da forma mais visceral e sincera possível, falando em português claro e criando assim um elo mais intimista com os seguidores do grupo, que em grande parte se identifica com as letras e com o som enquanto enxerga claramente seus próprios demônios.
Desde o início de sua trajetória, a banda foi marcada e praticamente construída em cima dos escombros que a vida deixou na minha vida após anos de episódios de doenças na família, suicídios e tragédias. Eu, Verme, até hoje permaneço um livro aberto nas composições quando o assunto é autorreflexão de forma niilista e desoladora, sensação que infelizmente tem assolado cada vez mais pessoas nesse ritmo frenético e desigual que a existência tomou, e que ao menos possamos nos sentir apenas doentes, mas não sozinhos ou culpados.
De forma um pouco mais informal, muitos fãs nossos se identificam com os problemas pessoais que eu passei/passo desde muito tempo. Perdi meu pai pro câncer após 8 anos de alcoolismo severo, perdi meu melhor amigo para o suicídio, isso tudo no intervalo de um ano. Fora os abusos e espancamentos na fase infantil da vida. Então essa raiva extrema já é algo que fez com que a banda nascesse e que ainda segue muito presente até hoje, sempre somadas com mais experiências ruins que vem ao longo do caminho.
O principal tema que acredito ligar a banda aos fãs são problemas familiares, abusos e doenças. Muitos se identificam pois perderam alguém, ou estão lutando contra isso em casa. Muitos se identificam por se sentirem sozinhos e depressivos, muitos se identificam por não verem sentido em estar vivo, e todas essas reflexões sempre estão escancaradas nas letras que eu escrevo. Sou um cara que com certeza carrego marcas pesadas na vida desde criança, trago isso de forma explícita na minha música, e muita gente passa por coisas parecidas. Essa eu acredito que seja a principal identificação com a banda. O Sangue de Bode fala sobre os problemas de todo mundo, seja enquanto sociedade ou indivíduo.