Lançado em um período muito sombrio da história política do Brasil, o álbum "Mais Podres do que Nunca" dos Garotos Podres de 1985 marcou época e se tornou uma das referências não apenas do Punk como do Rock em geral e da cultura dos anos 80 no Brasil, sendo lembrado até hoje inclusive em programas da televisão aberta como na edição do dia 11 de janeiro desse ano do programa "Altas Horas" de Serginho Groisman da rede Globo, em uma edição especial dedicado a ícones dos anos 80, que contou com a participação do vocalista Mao, confira aqui ou na própria plataforma do Globo Play.
E eis que no ano que esse icônico álbum completa 40 anos, data tão importante que não poderia passar em branco, a banda relançou o álbum em uma edição mais que especial em vinil pela Nada Nada Discos (@nadanadadiscos) em um show com ingressos esgotados antecipadamente no Sesc Belenzinho no último sábado na capital paulista.
Cerca de uma hora antes do início do show, previsto para as 20:30, o movimento do público nas belas instalações do Sesc Belenzinho já era visível, a destacar o encontro de gerações que compôs o público presente; desde senhores na casa dos 50 ou 60 anos de idade que certamente viram a cena Punk dos anos 80 em São Paulo e no ABC Paulista, bem como crianças e adolescentes que tiveram a oportunidade (graças ao Sesc) de presenciar um show de uma banda veterana e lendária do Punk Rock brasileiro com uma estrutura de ótima qualidade e a um preço totalmente justo.
No horário previsto para início do show, o quarteto hoje formado por seu eterno líder Mao (vocal e gaita), acompanhado de Uel (baixo e vocal), Negralha (bateria e vocal) e Alberto Rinaldi “Deedy” (guitarra e vocal, também da banda Subalternos) subiu ao palco do Sesc Belenzinho completamente lotado e com o jogo já ganho, a começar pelas palavras de Rinaldi, que destacou que aquele momento seria histórico, e que muitos ali sequer tinham nascido quando o álbum "Mais Podres do que Nunca" havia sido lançado (eu me incluo nesta). E sem sombra de dúvidas, o que se viu foi uma celebração histórica, com todos as músicas que compõem o disco sendo executadas na mesma sequência do registro, algumas não tocadas há décadas, como a abertura com "Não Devemos Temer", que contou até com as partes de gaita sendo tocadas por Mao. Na sequência, o vocalista lembrou da primeira música da banda a ser censurada pelo departamento da Polícia Federal, a clássica "Johnny", foi a primeira amostra na prática na noite da importância dos temas presentes no icônico álbum, já que essa é indispensável até hoje nos shows dos Garotos Podres, tendo sua letra cantada em alto e bom som por todos os presentes.
Ainda sobre censura, é muito interessante notar que algumas músicas sofriam alterações para não serem "barradas" , "Maldita Preguiça" por exemplo foi executada nessa noite como originalmente deveria ser; "Maldita Polícia" (e ainda há que diga que não houve ditadura/censura no Brasil ou que vivemos hoje em uma!).
Canções como "Vou Fazer Cocô" e "Anarkia Oi!" dispensam comentários e apresentações, pois são mais duas que fazem parte do repertório regular de shows da banda, mas foi incrível presenciar o público cantar e agitar em outras músicas não tocadas há décadas, um sentimento misto satisfatório de nostalgia para os mais velhos e de novidade para os mais novos.
Também professor de história, Mao aproveitou a noite histórica para expor que mesmo 40 anos após o fim da ditadura no Brasil, a banda foi inquerida em um processo por uma delegada para prestar esclarecimento sobre suas músicas, incluindo seu maior hit "Papai Noel Velho Batuta", com o bom humor ácido de sempre, Mao disse que simplesmente responderam que o Papai Noel não existe, para risos gerais, sendo a deixa pra mandarem seu maior clássico que como sempre marcou um dos melhores momentos do show.
Com seu título mais que sugestivo, "Miseráveis Ovelhas" foi dedicada ao pastor Silas Malafaia, seguida por "Liberdade (Onde Está?)" que encerrou a execução do álbum "Mais Podres do que Nunca", com Rinaldi brincando que o show estaria encerrado ali mesmo, com menos de meia hora de duração (muitos álbuns clássicos do Punk de fato não chegam aos 30 minutos de duração), aproveitando pra agradecer a presença de todos e reforçar a importância do disco não apenas para a banda como para o Rock nacional.
Vale destacar a qualidade do som do Sesc, impecável como de costume, ajudou a banda a apresentar um show de qualidade com músicas que nunca haviam sido tocadas pelos membros atuais, valendo a menção honrosa a Mao e seu esforço para cantar letras escritas há décadas mesmo com ajuda de algumas "colas" das mesmas coladas com fita adesiva no palco, e sim, o veterano vocalista atualmente tem uma voz bem diferente daquela que tinha quando gravou essas músicas, mas mesmo assim conseguiu canta-las de uma forma muito digna, incluindo também as partes de gaita, executando-as de forma fiel dentro do possível.
Obviamente que o show não iria acabar após a execução do álbum, sobrando um bom tempo para a banda presentear os fãs com mais algumas de suas perolas clássicas como "Garoto Podre", "Oi, Tudo Bem?" e "Vomitaram No Trem", que como sempre trazem muita energia nos shows. "Rock de Subúrbio", "Subúrbio Operário" e "A Internacional" são mais algumas que não podem faltar em um show dos Garotos Podres, valendo destacar também "Avante Camarada" e "Repressão Policial (Instrumento Capital)", lançadas sob o nome “O Satânico Dr. Mao e os Espiões Secretos”, que nada mais é que uma continuação dos Garotos Podres enquanto Mao ficou impossibilitado de usar o nome de sua própria banda.
"Anistia", outra com título mais que sugestivo, foi a deixa para gritos gerais de "sem anistia!" pelo público, sendo muito curioso notar que músicas lançadas há 20, 30 ou 40 anos se encaixando tão bem em tempos atuais.
O show também teve seu momento de humor sexta série (segundo o próprio Mao) com "Mancha" antes do desfecho com "Kim Jonguinho" e "Verme", dando números finais ao show de uma hora e vinte minutos de duração, uma celebração mais que digna do Punk Rock brasileiro que nitidamente agradou em cheio à todos os presentes.
Setlist:
1- Não Devemos Temer
2- Johnny
3- Insatisfação
4- Maldita Preguiça
5- Vou Fazer Cocô
6- Anarkia Oi!
7- Eu Não Sei o que Quero
8- Papai Noel Velho Batuta
9- Miseráveis Ovelhas
10- Liberdade (Onde Está?)
11- Garoto Podre
12- Oi, Tudo Bem?
13- Vomitaram No Trem
14- Rock de Subúrbio
15- Subúrbio Operário
16- Avante Camarada
17- A Internacional
18- Grândola, Vila Morena
19- Aos Fuzilados da C.S.N.
20- Repressão Policial (Instrumento Capital)
21- Anistia
22- Mancha
23- Kim Jonguinho
24- Verme
Nota: A polemica faixa "Führer", que originalmente fecha o álbum "Mais Podres do que Nunca" ficou de fora do repertório, incompreendida desde seu lançamento no álbum, a música foi composta em 1982 como forma de protesto contra os massacres dos campos de refugiados de Sabra e Chatila, durante a ocupação israelense no sul do Líbano, com a intenção de comparar a política dos israelenses em relação aos palestinos com a que eles mesmos sofreram na segunda guerra mundial, entretanto seu real significado não foi muito bem compreendido, sendo assim, a música que já não era mais executada ao vivo há mais de 37 anos segue de fora do repertório mesmo nessa celebração para se evitar maiores problemas, inclusive ficando também de fora do relançamento do álbum.