Os portugueses do Moonspell já vêm a tempos tateando um meio termo entre seu passado mais Black Metal com suas fases mais góticas. Foi assim com Under Satanae (regravação dos primeiros registros da banda) e com Night Eternal, que até então foi aclamado como o melhor registro dos lusitanos. Sem perder esse resgate e os sons soturnos que conseguiram nos tempos mais góticos, os lusitanos ousam, e muito. Lançado ao mesmo tempo dois trabalhos, Alpha Noir e Omega White, cada um traz a banda em seu melhor momento separando o lado extremamente agressivo de seu lado sombrio e soturno. Apesar de diferentes, os discos se completam de uma forma sabiamente composta pela banda
O lado mais extremo vem em Alpha Noir. Logo na abertura com Axis Mundi, o Moonspell soa agressivo, pesado, em um trabalho instrumental perfeito e mostrando a maestria do líder Fernando Ribeiro com as palavras, em uma letra que mistura inglês, latim e português. Esse trabalho destila venenosamente canções que podem ser já consideradas clássicas: Lickanthrope tem riffs cortantes e empolgantes e Alpha Noir é uma peça Death/Thrash com um clima muito sombrio. Em Nome do Medo se destaca pelo trabalho nas bases da música e pela sua letra densa e obscura em nossa língua natal (“Comemos os frutos de tão triste jardim/ Faltou-nos o tempo, chegamos ao fim/ Em nome do medo”) e a instrumental Sine Missione tem uma beleza única, angustiante, num belo arranjo orquestral.
Deixando de lado o lado agressivo, porém sem deixar o peso e o lado sombrio, Omega White é um deleite para os fãs do lado mais gótico da banda. De sonoridade mais limpa e com atenção maior aos teclados, as músicas têm um apelo mais melódico, como a faixa título que abre o disco. White Skies, um Gothic Rock de levantar defunto em pistas de casas
góticas, chega a ser outro momento brilhante dos portugueses. Em Fireseason mostra a banda não somente voltada ao passado, mas sim também inovadora, com violões e batidas tribais, e Herodisiac é a “ponte de ligação” com Alpha Noir, com seus riffs pesados, misturados a vocais femininos de apoio. Perfeito.
Claro que Fernando Ribeiro sempre vai ser o músico em destaque. Principal compositor da banda, nesse trabalho mostra uma enorme evolução em já seu consagrado trabalho como vocalista, com interpretações de deixar qualquer um abismado. Ricardo Amorin também deixo belos registros com sua guitarra, dando um novo caminho ao seu estilo, trabalhando em cima de suas influências e ontem e de hoje. E o outro destaque fica por conta de Pedro Paixão, principalmente pelo que ele faz em Omega White nos teclados, instrumento que enorme destaque nessa parte do trabalho, em arranjos e timbres muito bem pensados e escolhidos.
A banda continuou a trabalhar com Madsen na produção, junção que vem dando certo desde Under Satanae e fator que deixou esse trabalho com uma sonoridade e produção acima da média. Apesar de dois trabalhos, podemos encontrar uma edição especial que os dois discos estão juntos em um digipack. Juntando as belas obras que estampam as capas dos discos, temos aqui um trabalho imperdível de uma banda que cava seus mais fundos e remotos pensamentos e consegue renovar eles numa ponte entre passado/futuro muito bem equilibrada.

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