O anúncio do uso de "crowd funding" para que fãs ajudassem na produção do novo disco da Dorsal Atlântica uns tempos atrás causou um certo rebuliço na mídia, de um lado os fãs da banda ajudaram e gostaram da iniciativa de Carlos Lopes em “ressuscitar” a banda, de outro taxaram de oportunista e afins, principalmente pelo valor alto em que fizeram, principalmente em sabermos que músicos experientes hoje em dia, em lançamentos onde eles mesmo produzem, não gastam tanto mais por causa da alta tecnologia que temos. Mas mesmo com o falatório, a banda conseguiu a grana por meio dos fãs, e Carlos, junto com seu irmão Cláudio Lopes e Hardcore – integrantes da clássica formação de Antes do Fim, Depois do Fim – lançaram Dorsal.


Apesar de Carlos Lopes ter se afastado do Heavy Metal por um tempo, inclusive com falas nem sempre agradáveis a cena – e, convenhamos, em certos pontos sempre com razão -, acertou a mão nesse trabalho da Dorsal Atlântica: um disco cheio de riffs, que passam pelo Hardcore e pelo Thrash, e com as típicas letras de protestos sobre a sociedade brasileira, marca da banda; porém ficou um clima meio “preencher uma lacuna na história da banda”, pois o trabalho não resgata os tempos áureos da banda e nem traz algo de inovador...


Mesmo assim, Carlos Lopes soube criar canções que não soam como cópias de seu passado em momentos que são realmente legais. A abertura com Meu Filho Me Vingará da o tom do trabalho: riffs rápidos e cortantes, cozinha simples mas bem trabalhada e letra inteligente; momentos mais ‘thrasher” aparece em A Invasão do Brasil; o Hardcore rola solto em Eu Minto, Todo Mundo Mente; o lado mais Rock’ n’ Roll (aquele de sua banda Mustang) aparece em Corruptor Corruptor. O diferencial fica realmente na lírica do trabalho: prestem atenção nas letras de Jango Goulart, Comissão da Verdade e Colonizado Entreguista, com Carlos mostrando que sabe criticamente falar sobre a história e sociedade de nosso querido Brasil (acredito que em décadas atrás letras como essas seriam perfeitamente alvos de uma bela censura...). Fica um pouco destoada do trabalho a instrumental 168 Bpm, feita no violão, e a homenagem aos fãs Imortais, uma cópia descarada do estilo Manowar de ser... A produção não foge muito do estilo da Dorsal: meio sujo, sem muita máscara nos instrumentos, algo realmente cru e reto aos ouvidos, porém bem mixada, onde escutamos instrumento por instrumento.


O disco não é ruim, pode surpreender a primeira audição, porém quem for ouvir pensando no passado da banda pode se queixar dos rumos tomados. Infelizmente em uma recente entrevista Carlos Lopes já declarou que não tem mais planos para a Dorsal Atlântica, fechando de vez o ciclo de uma das bandas mais importantes do Heavy Metal nacional. E fechando com certo louvor.